Carlso Drummond de Andrade
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Helberto Helder
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.
Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima –
Eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe
que te procuram.
Não sou eu, nem sou o outro…
Há três anos fiz as malas, comprei um bilhete de avião e mudei-me para Londres. Tinha passado um Verão estupendo com o David no Algarve. Foram as minhas últimas grandes férias no sentido mais abrangente do termo. Conservo essa imagem do David, alto e terno na plataforma da estação dos comboios a dizer-me adeus. E lembro-me que durante essa viagem escrevi uma carta à Raquel.
A decisão de me mudar de malas e bagagens para um país que não conhecia pode ser justificada de várias maneiras e depende, sobretudo, da pessoa com quem eu estiver a falar. Se estiver a conversar com uma pessoa cuja visão do mundo assenta na segurança e estabilidade, digo que me mudei porque não encontrava trabalho no meu país. Falo em termos económicos, uso conceitos como carreira, trabalho, salário. Mas se estiver a falar com alguém com densidade, imaginação e uma vida marcada por emoção e afectos, falo das minhas ansiedades, dos meus compromissos, dos meus sonhos de liberdade e independência. Na realidade, tanto posso ser a menina que vem de um país pobre à procura de uma vida melhor ou a aventureira que decidiu ir à luta, fazer as malas e conhecer o mundo; que decidiu num impulso ir ao encontro desse mítico Outro que ocupava as páginas dos livros de Antropologia. Claro que a maioria das pessoas apenas vê ‘emigrante à procura de uma vida melhor’! Viver com este estereótipo constituiu um dos meus primeiros desafios. Tive, sobretudo, que aceitar o fato que não importa o número de vezes em que repetes a tua história de vida. Há pessoas que vêem apenas aquilo que querem ver e que nas suas visões de mundo não existe espaço nem compreensão para vidas alternativas, para a noção que pessoas estrangeiras, sem um domínio completo do idioma, também têm vida interior, densidade, sonhos e projetos.
A verdadeira razão da minha vinda é mais subtil, mais escorregadia, menos fácil de perceber. Na altura tinha vinte e cinco anos. Tinha acabado o meu curso de Antropologia há um ano. Vivia em Viana na casa que nunca considerei a casa dos meus pais. Era a minha casa. É a minha casa. Agora consigo vislumbrar a beleza que compunha a minha vida de outrora. O tempo infinito, o cheiro do café, os jornais, as livrarias, a cidade, a minha cidade ao final da tarde num dia de Verão. Só quem vive ou viveu num pais ainda marcado pelas estações do ano pode compreender a beleza de um final de tarde. Agora, à luz daquilo que o tempo já levou, posso deixar-me levar pela saudade e viajar até aos celeiros da minha meninice. E encontro-me cada vez que embarco nessas viagens. Encontro um tempo cheio de pequenos pormenores. Encontro um céu cheio de estrelas, um ar ausente de poeiras, um mundo que se estende sobre o meu olhar, perfeito e castiço. Encontro caminhos e rostos que conheço desde criança. Os mesmos caminhos que me viram crescer. Os mesmos sons que me acompanham desde sempre. Encontro o rosto da minha mãe, tão meu, tão perto da minha alma. Encontro o corpo maternal da minha mãe, da minha avó. Encontro-me naquela menina de cabelos loiros que eu era aos sete anos de idade.
Todas as palavras do mundo são pequenas para expressar os sentimentos, a infinitude de pensamentos e emoções que cruzam a nossa mente. Talvez a minha incapacidade de escrever advenha daí. É tanta coisa. É um manancial de sentimentos, projeções, delírios, encontros, frustrações, obscenidades.
Sei que este é o verdadeiro encontro antropológico. O que me foi dado viver é o verdadeiro, multifacetado, transgressor trabalho de campo. O outro que surge nas monografias antropológicas, o outro tão exótico, mas tão sem corpo, empalidece em relação a este Outro, denso, frustrante, escorregadio.
São as duas faces da mesma moeda, um lado enredado no outro, uma parte que respira em sintonia com a outra. O eu e o outro. Esse outro que a antropologia trouxe, belo e tenebroso, à luz do dia. O outro que o meu entendimento filtrou, cuja existência a minha mente percepcionou. A minha viagem transgressora, iniciada pelo desejo de liberdade e de autoconhecimento levou-me ao encontro dessa personagem mítica dos livros de viagens de outros autores. Por isso não posso falar de mim e da minha vida em Londres sem falar desse encontro. São os dois idiomas que definem a minha experiência. O pessoal e transpessoal.
O facebook
Sempre tive uma relação ambígua com aquilo que se convencionou chamar redes sociais. Essa obsessão pela partilha constante de tudo causa-me desconforto. Sinceramente não me interessa nada saber o que é que aquele fulano está a fazer a determinada hora do dia. Mas não deixa de ser interessante o facto de estas redes nos transmitirem a sensação de estarmos a olhar a vida dos outros pelo buraco da fechadura.
Ontem explorando o Facebook deparei com perfis de pessoas que conheço e que fui perdendo de vista com a passagem do tempo. Essas pessoas estavam lá, à distância de uma opção. É uma sensação estranha.
Afirmações I
Reencontro o silêncio da meditação. Apaziguo a mente, tranquilizo o espírito, e permito que a vida me sussurre aquilo que necessito saber. Que me revele o conjunto de desculpas que criei para me proteger. Que me revele esses hábitos de pensamento que criaram barreiras. Permito a minha mesma estar em silêncio, contemplando sem juízos de valor as minhas escolhas.
i choose to have a mind open to everything and attach to nothing
Sinto-me desamparada. Este é único espaço que é verdadeiramente meu. Sem desculpas, nem destinatários, aqui posso verter toda a minha angústia. Ninguém me julga, excepto eu mesma. A escrita não tem que ser boa ou fazer sentido, não tenho que impressionar os meus amigos com a minha clarividência literária. Aqui estou nua. Não me preocupar com o sentido ou a perfeição daquilo que escrevo é capaz de ser o primeiro passo no sentido da completa libertação. Apetece-me gritar. Gritar bem alto para que me deixem em paz. Esqueçam que eu existo, que o meu imperfeito corpo existe, que a minha descoordenação motora existe, que a minha falta de jeito existe. Não quero ser boa em nada. Não quero que o sexo seja um meio de provar o quão desapegada eu posso ser. Não quero que o caminho até ao orgasmo seja tão sedento de preliminares. Quero-o curto e doce. Quero conversar ao longo do caminho, coisas sem sentido, nem nexo, uma voz entrecortada por suspiros e gemidos. Quero sentir que o meu corpo não é apenas um corpo. Quero que se torne claro que sou eu quem lhe dá prazer. Nada é simples. Sinto o cheiro dele e estou a fazer exactamente aquilo que prometi nunca mais fazer. Sublimar a realidade. Transforma-lo num sujeito com corpo, cheiro, apetências.
Gosto quando ele me faz rir, quando ele me beija a ponta do nariz porque sabe que eu gosto. Mas falar sobre isso, escrever sobre isso, transformar isso em material literário é o primeiro passo para a destruição.
Há tanta coisa que não sei, tantos jogos cujas regras me escapam. Eu só sei ser eu mesma. E eu sou um ser cheio de silêncios, boas intenções, mas lento e contemplativo. Os outros magoam-me constantemente e quebro com tanta facilidade.
Carta
Algures em Outubro
Raquel
Hoje comecei o meu dia às cinco da manhã. Ultimamente começo os dias às cinco da manhã, quando o mundo ainda está a dormir e como escreve o Borges ‘a madrugada é ainda um pássaro perdido na vileza mais distante do mundo’. Acordo e ainda está frio. A cama é ainda um refúgio apetitoso a esta hora. Por isso deixo-me estar, quente e protegida. Gostaria de te dizer que fico na cama a ler, na companhia de uma mente genial, mas a verdade é que sucumbo à mais prosaica das actividades – a televisão. Por duas horas permito-me deambular no mundo surreal das séries de televisão. Quando o Sol surge, levanto-me, preparo uma caneca de café fumegante, ligo o meu computador e leio os meus blogues de eleição. Se estamos em inicio de semana, ouço o Amor é ou o Câmara Clara. Se não, opto pela TSF ou o Djavan ou a Luz Casal.
Acabei agora mesmo de receber a tua encomenda, totalmente inesperada. Adoro aqueles envelopes grandes que protegem os tesouros que as pessoas escolhem enviarem-me. Este é talvez o gesto mais enternecedor para quem vive em trânsito, para quem preferiu sentir o tédio em terras estrangeiras. Receber uma carta, uma encomenda vinda de um lugar afectivo que se deixou para trás, transforma-se num momento de calor por excelência. Essa sensação é algo que nenhum correio electrónico pode substituir. Chegar a casa e deparar com um embrulho ou uma carta cuja caligrafia já nos é familiar tornou-se num caloroso prazer.
A vida é também uma jornada ao interior de ti mesma, suponho eu. Fico a pensar qual será o meu papel. Aonde é que eu estou. Não me sinto. Na verdade sinto que nada faz sentido. O que outrora me dava refúgio já não me serve. Mas com efervescência sacudo tudo isto, porque sei que daqui nada resulta. Desta auto comiseração e auto piedade nada resulta.
Não sei quantos meses se passaram desde que escrevi isto. Tanta coisa se passou e tantas coisas permanecem teimosamente na mesma. Vivo em círculos, regressando sempre ao mesmo ponto de partida, às mesmas dúvidas cuja intensidade não se desfaz com a passagem do tempo. Coisas acontecem, momentos de lucidez surgem e se desvanecem com a mesma rapidez e tudo o que acontece arranha a pele. A necessidade de dar sentido torna-se numa sensação corporal, a necessidade de saber anda de mãos dadas com a necessidade de estender os membros, de esticar a minha capacidade de entender. Em trânsito temos a sensação que nos perdemos na diferença, na imensidão. Todos os gestos têm um duplo sentido. Vivo num não lugar, num espaço em constante movimento e dentro dele sufoco, perco as coordenadas.
Há obviamente a antropologia e as ferramentas que ela me possibilita para entender o mundo e a mim mesma. Mas quando tudo à tua volta te quer inscrever num estereótipo, te quer reduzir a uma fracção da tua história, torna-se difícil manter a cabeça à superfície. É tentador deixares-te ir na maré, fechares os olhos, suspenderes a respiração e deixares-te envolver nessa corrente de opiniões alheias, deixares de defender a tua diferença e identidade e simplesmente sucumbires ao inevitável.
Mas que melhor experiência podia eu querer que esta, que este circuito migratório que te permite estar em dois campos? Não será esta a antropologia por excelência, um encontro com o outro sem as barreiras e defesas de um ‘label’ académico?